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ANTONIO MACHADO

21/04/2019 12:24 por Antonio Machado

Se a tecnologia move a economia moderna, o que fazemos para estar neste jogo? Não fazemos

Ou mudamos a mentalidade ou continuamos em queda, pondo culpa nos políticos, a versão moderna do circo da Roma antiga, operado pelos que não querem expor as verdades inconvenientes

Mais coragem e ambição

Os argumentos dos senhores dos poderes em Brasília sugerem que o Brasil está diante do portão do inferno, assistindo à falência do Estado, tal como o Rio de Janeiro arrasado e rifado por corruptos, traficantes e milicianos, o que pode ser destino, se tomado ao pé da letra, ou prenúncio de transformações que já tardam.

Depende da interpretação que se dê aos motivos mais citados para o nosso atraso em todas as dimensões; na do PIB, regredimos em nove anos de 6ª maior economia do mundo para 9ª – choque entre poderes da República, corrupção sistêmica, estagnação econômica etc.

Tome-se a corrupção. Ela será tolhida com aumento da repressão ou com mudanças radicais que quebrem o sistema secular de apropriação privada do aparelho de Estado visando o enriquecimento de poucos?

Uma solução amplia a burocracia e privilégios, não necessariamente a eficiência da governança estatal - razão da constitucionalização do teto de expansão do gasto público e da reforma da previdência.

A outra busca antecipar-se ao crime com uso maciço de tecnologias que melhorem a transparência dos negócios públicos, mitigando a necessidade de dispendiosos aparatos de controle e repressão, além de instigar a economia do conhecimento, a nova fonte de riqueza das nações desenvolvidas (EUA, Alemanha, Japão, Israel) ou caminhando a passos firmes nesta direção (China, que está quase lá, e Índia).

Desde o fracasso do plano de desenvolvimento do presidente Ernesto Geisel a ideia de governo preocupado com o crescimento econômico se tornou maldita, exprimindo estatismo, inépcia, reserva de mercado, o que foi verdade na ditadura militar e ressurgiu como farsa nos devaneios de Lula e Dilma.

O erro desde então foi termos tomado a exceção como regra, quando, de fato, governos sempre foram pivô do desenvolvimento em economias com firmes princípios liberais, como os EUA (tanto de Ronald Reagan como de Barack Obama), a Alemanha, a Coréia do Sul, o Japão.

Uma coisa é o governo intervencionista, outra é o que coordena as expectativas, orienta as prioridades por meio da regulação e banca a expansão da fronteira tecnológica (assim surgiram nos EUA a internet, o sequenciamento do DNA, a inteligência artificial, e quase tudo mais que impulsiona a economia movida pela inovação).

Qual a missão inarredável

Unir a sociedade em torno de uma visão de futuro próspero é missão inarredável dos governos, razão pela qual na crise de 2008, quando Washington correu para deter a pindaíba de Wall Street, os gastos em inovação tecnológica nas empresas e na pesquisa científica nos laboratórios acadêmicos não foram cortados nos EUA. Ainda assim, a clivagem política só tem feito crescer entre os americanos.

A disputa pelo domínio da inteligência artificial, da robótica, da internet das coisas, da biomedicina, é a motivação de fundo do conflito geopolítico entre EUA e China. Ambos os governos sabem que o poder global está nestas áreas, não em insumos primários. O valor da eletrônica embarcada num automóvel, por exemplo, equivale a mais de metade de seu custo total de produção.

Se conhecimento tecnológico é o que move a economia moderna, o que fazemos para estar neste jogo? Não fazemos.

Desde a estabilização monetária em 1994 não fazemos outra coisa que brigar por programas visando conter o gasto com privilégios da elite da burocracia, com caprichos dos políticos e com os juros da dívida pública.

Prefácio de qualquer reforma

Por maior a urgência de mudar a previdência, também temos de falar de crescimento e de progresso e não há como isso acontecer sem que o governo e o Congresso organizem a discussão. Existem para isso.

O que deveria estar no prefácio das reformas é o que será do Brasil no mundo high tech diante de questões tais como:

1) economia estagnada e produtividade medíocre;

2) canais da política obstruídos;

3) Estado capturado por corporações cuja autonomia impede qualquer planejamento central;

4) educação ruim e currículo divorciado das prioridades;

5) dependente de divisas de setores com encadeamento produtivo limitado (minérios, petróleo, grãos);

6) maioria dos setores industriais atrás da curva de inovação, em especial o automotivo, que é o maior em termos agregados no PIB.

Tais mazelas são sequelas de programas armados para travar guerras do passado, formulados por grupos incapazes de pensar para frente.

Tal como circo da Roma antiga

Pensar para frente é, por exemplo, não arredar pé da educação com notas exemplares em matemática, português e ciências. É não cogitar nenhuma reforma dissociada do aparato da tecnologia da informação.

É possível arrecadar tributos em tempo real com ou sem a mediação bancária, assim como fazer cirurgias complexas à distância graças à chamada telemedicina, ambas retardadas por lobbies setoriais.

Um sistema de identidade digital único pode ativar, segundo estudo da consultoria McKinsey, um resultado econômico de US$ 374 bilhões em dez anos, 13% do PIB, incorporando mais de 50 milhões de pessoas excluídas do mercado e a economia informal da ordem de 35% do PIB.

Ou mudamos a mentalidade ou continuamos em queda, pondo culpa nos políticos, a versão moderna do circo da Roma antiga, operado pelos que querem desviar a nossa atenção das verdades inconvenientes.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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