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10/09/2019 11:38 por Redação

Na questão da sobrevivência as mulheres são o sexo mais forte

A sociedade brasileira precisa saber aproveitar o potencial das mulheres recém-chegadas à terceira idade

Rachel Cardoso*

Mais do que as estatísticas, as histórias de vida com as quais nos deparamos no cotidiano mostram que as mulheres são o sexo mais forte quando se trata não só de longevidade, mas de sobrevivência. E não é só porque tradicionalmente se cuidam mais. Existe uma combinação de fatores históricos que leva e eleva a discussão da feminização da velhice para outros patamares. Porque como já é sabido, viver mais não significa necessariamente viver melhor.

O documento “Envelhecimento saudável: uma política de saúde”, da Organização Mundial de Saúde (OMS), mostra que as mulheres até possuem a vantagem da vida longa, mas são vítimas mais frequentes da violência doméstica e de discriminação no acesso à educação, salário, alimentação, trabalho significativo, assistência à saúde, heranças, medidas de seguro social e poder político.

Assim, as desigualdades por sexo promovidas pelas condições estruturais e socioeconômicas em muitas situações alteram além das condições de saúde, renda e dinâmica familiar. Por isso, a parcela feminina da população idosa tem provocado maior impacto nas demandas por políticas públicas e prestação de serviços de proteção social.

Inspiração para lidar com a nova realidade

O problema não está restrito à população brasileira e um olhar sob o que tem sido feito globalmente para enfrentar esse fenômeno da transição demográfica pode inspirar a construção de uma sociedade mais preparada para lidar com essa realidade. Segundo as estatísticas, em 2002 existiam 678 homens para cada mil mulheres idosas no mundo. É bem maior o número de mulheres idosas, e as expectativas são as de que as mulheres vivam, em média, de cinco a sete anos mais que os homens.

A estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) para 2040 aponta um número de 23,99 milhões de homens e 30,19 milhões de mulheres, uma diferença de 6,2 milhões de mulheres em relação à população idosa masculina. A razão de sexo deve cair para 79 homens para cada 100 mulheres entre a população idosa. Ou seja, nos próximos anos vai crescer o excedente de mulheres em cada grupo etário do topo da pirâmide.

No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), as mulheres vivem, em média, sete anos a mais do que os homens no país. Além disso, enquanto a expectativa de vida das mulheres é de 78,6 anos, a expectativa de vida da população masculina é de 71,3 anos. Isso ocorre porque as mulheres, na maioria das vezes, possuem hábitos mais saudáveis do que os homens, além de procurarem com mais frequência acompanhamento médico, o que permite a identificação e o tratamento de possíveis doenças.

Outro fator de impacto é o aumento da criminalidade no Brasil, que tem sido responsável pela redução da população masculina, principalmente dos jovens com idade entre 18 e 29 anos, fato que tem contribuído para esse desequilíbrio entre o número de homens e mulheres. Acompanha ainda o processo de mudança uma maior participação social feminina. É cada vez mais comum mulheres chefiando famílias e o seu ingresso no mercado de trabalho, escreve José Eustáquio Alves, pesquisador do IBGE em artigo para o Portal do Envelhecimento.

A velhice é feminina

Como resultado desse cenário, os problemas e mudanças que acompanham o envelhecimento são predominantemente femininos, pelo que se pode dizer que a velhice se feminilizou. Os aspectos do envelhecimento feminino incluem além da discriminação e gerofobia, perdas físicas e sociais, pobreza e solidão. Algo que implica em maior incidência de doenças crônico-degenerativas e estados depressivos.

Desse contingente majoritário, existe uma alta proporção de mulheres idosas que moram sozinhas em diferentes situações. Esse fato foi denominado no passado de pirâmide da solidão. Mas como morar sozinho não significa ser solitário, o denominado fenômeno da “pirâmide da solidão”, indica apenas a existência de um crescente número de mulheres idosas sem companheiros.

Um fato positivo, entretanto, é que o novo contingente de mulheres com mais de 60 anos tem revertido a desigualdade de gênero na educação, fazendo com que o nível de escolaridade do sexo feminino atualmente seja maior do que o do sexo masculino também entre a população idosa. E a sociedade brasileira precisa saber aproveitar o potencial dessas recém-chegadas à terceira idade, que possuem altos níveis educacionais, além de ricas experiências de trabalho e de vida. Os idosos e, em especial, as idosas podem se transformar em fonte de sabedoria e difusão de conhecimentos para toda a sociedade.

Essa tal sororidade

É, porém, essencial uma reflexão nesse caminho da dissolvição dos preconceitos: a relação entre as próprias mulheres. Há uma tendência latente no meio social de idosas cuidando de outras idosas.

Assim, além de questionar as razões que levam mulheres brasileiras a aceitar e fortalecer, com seus medos e inseguranças, os preconceitos com relação ao envelhecimento feminino, é preciso uma mudança no modo como enxergamos e julgamos umas às outras, a partir do conceito da sororidade, para tecer nossas vidas com liberdade e apoio.

Outro fato a se considerar é que a maioria das idosas de hoje vêm de uma juventude dura, carregada por um estilo de vida familiar completamente diferente do cotidiano da atualidade. Muitas sequer tiveram direto de escolhas. Diante da vida moderna, enfrentam um choque cultural e tendem a se angustiar.

Por isso, a questão da saúde mental é cada vez mais preocupante e demanda políticas públicas mais consistentes, voltadas para a feminização da velhice. Um trabalho de ressocialização, por exemplo, é uma alternativa viável para as mulheres longevas encarem o envelhecimento como um momento em que dá para realizar sonhos, viajar, estudar e ampliar seus horizontes.

* Rachel Cardoso, jornalista, é editora do blog Casa de Mãe.

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