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09/05/2019 14:22 por Redação

Febre suína africana e o impacto nos preços brasileiros de proteínas

Ellen Regina Steter e Leandro Câmara Negrão*

O número de casos de febre suína africana aumentou consideravelmente ao longo do último semestre do ano passado.A doença estava concentrada em alguns países do leste europeu e passou a ser reportada também na Ásia. Ainda que o número de casos mundiais tenha caído nos últimos meses, a chegada do vírus no território chinês mudou a escala de preocupação.

A China é o maior mercado mundial de suínos, respondendo por cerca de 50% da produção e do consumo global.Dados do USDA apontam que a febre suína poderia causar queda de 10% da produção chinesa. Alguns analistas acreditam que essa queda pode chegar a 30% neste ano. Em ambos os casos já seria a maior queda já registrada na produção chinesa de suínos.

Analisamos outros três períodos em que um choque de oferta gerou altas consistentes nos preços de carne suína na China. São eles: i) 2006-2008, quando o rebanho foi infectado pela doença da “orelha azul”; ii) 2010-2012, impacto da diarreia epidêmica de suínos; e, iii) 2015-2016, ajuste na produção local em função de diretrizes ambientais.

Entre os eventos, os ciclos da “orelha azul” e do “ajuste ambiental” foram os mais intensos, com retração em torno de 7% da produção em dois anos.Nesses períodos, os preços dos porcos na bolsa de Chicago (EUA) subiram em média 21%.

No choque atual, os preços de porcos em Chicago aumentaram 67,2%. Mantendo a proporção observada nos últimos choques é possível intuir, tudo mais constante, que a cotação atual já precifica uma queda ao redor de 25% na produção chinesa. Isto é, os preços refletem praticamente o pior cenário estimado atualmente (queda de 30%). O resultado de um modelo mais estrutural para preços de porcos sugere resultados bem semelhantes.

Dessa forma, para uma alta adicional dos preços da carne suína em Chicago será necessário uma piora do ambiente atual.A manutenção dos preços norte-americanos no patamar atual é compatível com uma variação de 43% na cotação do suíno no atacado brasileiro. No entanto, utilizando hipótese mais conservadora, já que se trata do maior choque na oferta de porcos, consideramos na nossa projeção 95% de aumento no atacado neste ano, compatível com alta de 19% para o varejo (IPCA) nas carnes de porcos e frangos.

A principal parte do choque se dará neste ano.Para que ocorram elevações na mesma magnitude no próximo ano, serão necessárias novas revisões baixistas da produção chinesa, além dos 30% já precificados em Chicago. Assim, estimamos elevação de 9,3% no atacado brasileiro, compatível com variação de 4,4% no varejo em 2020.

Apesar de o efeito não ser propriamente direto, há expectativa de que o preço da carne bovina e dos demais alimentos da cadeia também seja afetado.Estimamos aumento de 8,0% para carne bovina no IPCA deste ano.Somando os demais alimentos da cadeia (industrializado, ovos e lácteos), projetamos alta de 10,5% no complexo carnes em 2019.

Em resumo, estimamos que o impacto adicional atribuído aos efeitos da febre suína é de 0,42 p.p. no IPCA, sendo 0,38 p.p. neste ano e 0,04 p.p. em 2020.Essaspressões tendem a elevar apenas marginalmente nossas projeções para o IPCA de 2019, que está em 3,8%, uma vez que outros fatores, majoritariamente o hiato do PIB, têm atuado para reduzir as projeções do núcleo de inflação. Para 2020, a projeção está mantida em 3,9% dado o impacto residual da PSA nos preços.

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* Ellen Regina Steter e Leandro Câmara Negrão são economistas do Departamento de Estudos e Análises Ecionômicas do Bradesco.

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